cotas.espaço.rave:

por Núbia Fernamo


Esse momento aqui surge de uma provocação e assim os convido para a reflexão sobre a (não) presença de corpos pretos em determinados espaços.

Primeiro aviso: isto não é uma palestra sobre representatividade.

É uma manifestação sobre a necessidade de uma reintegração de posse.

Existe uma tensão entre as palavras corpo X cota, certos corpos seguem sendo quantificados.

Vamos aqui pensar sobre como questões estruturais da sociedade brasileira reverberam em nichos de produção cultural/artística na cidade.

Quando digo que não se trata de representatividade é pq o visível facilmente se torna ficção, não existe representação oficial da realidade e memória é um território de disputa. A branquitude, que oficializa sua versão dos fatos, agora chama estratégia de marketing de reparação, e só usam isso em pról de lidar com a própria culpa.

Segundo aviso: se o exercício de reparação está confortável para os que estão em posição de privilégio, não é reparação, é estratégia de marketing.

É necessário que haja um constante questionamento sobre o que se fala/defende, e como se atua no mundo para que se não replique valores que queremos destruir.

Erika Hilton diz “a revolução é preta, é trans, pobre, é trabalhadora, a revolução não vai vir do alto do pinheiros” e faz a exigência “entendam seu lugar na sociedade e de que lugar vocês falam”.

Certos corpos simplesmente nascem políticos. Certos corpos tendem a trabalhar enquanto outros tendem a se divertir.

Não queremos inclusão, o ato de “incluir” pré supõe que certo corpo estava fora de certo espaço, não fazia parte - só que esse território foi construído por nossos ancestrais, e essa música... nós sempre estivemos dentro, no cerne, fomos os pioneiros, sem nós nada disso não existiria.

Terceiro aviso: culpas e vergonhas pálidas não nos interessam.

Acostumada à redenção plena do mundo inteiro para ela, a branquitude
aciona o legado de religiões hegemônicas (culpa, pedido de perdão,martirização)
é um repertório mais fácil de reproduzir do que se engajar em questionamentos cotidianos e impermanentes sobre sua responsabilização racial.

Milena denuncia “o meu corpo de mulher preta é sexualidado e entendido como entretenimento - sou chamada de globeleza, enquanto o corpo da mulher branca é legitimado como parte do sistema de arte - chamadas de marina abramovic"

Quarto aviso: O assunto não vai se encerrar. Queremos todes incomodades. Questionamentos são ataques apenas para o que não estão comprometidos com um novo projeto de sociedade.

Curadoria determina o que importa. Narrativas marginais importam.

Xampy relata “Nos anos 90 e até mais ou menos 2010, segundo minha percepção, racismo, lgbtfobia, discriminação social e outras pautas afins, não eram a preocupação majoritária de uma pista de dança, mas todas essas formas de violência ocorriam comumente e eram, de certa forma, avalizadas. Era comum utilizar a palavra "baiana" como xoxe. Ou "cybermano", para se referir pejorativamente aos clubbers advindos das periferias, que não tinham grana pra comprar todas as roupas da moda e acesso às "melhores" festas do circuito Centro/Jardins/Vila Olímpia. A gente obviamente dava um jeito de adquirir algumas roupas "de marca" pra adaptar com outras coisas no visual, economizava pra ir nos rolês mais renomados, mas nem sempre se sentia bem vindo. Havia essa pressão em ser aceito, em não ser "taxado", meio que a gente tinha que "meter o pé na porta" pra entrar, e acabava reproduzindo os xoxes entre a gente, e tentando se adaptar aos códigos mais aceitos. E uma coisa óbvia era que a maioria que estava no rolê fora da periferia era branca, claro que tinham pretos, alguns estão por aqui até hoje, inclusive, e a cena era, de certa maneira, menos problemática do que a sociedade "diurna" sim, mas a grande maioria era branca.

O que mudou de 2010 pra cá é que o incômodo começou a aumentar. A cena das boates tinha ficado realmente muito cis, muito branca, muito heterossexual, e isso fez com que uma galera começasse a pensar no rolê de uma forma mais inclusiva, mais política e isso foi um mega avanço, porque essas discussões agora existem, a luta pela igualdade faz parte do dancefloor agora. Mas uma coisa permanece: tem um número substancial de pessoas pretas na pista, um número crescente de djs, performers e artistas diversos pretos, mas e os donos desses rolês, de que cor são? Ainda são brancos! Ou seja, tem um longo caminho a ser percorrido, porque me parece que a gente ainda precisa da chancela da branquitude pra sobreviver nesse meio, pra ocupar esses espaços, pra ter um lugar de fala assegurado, lugar de fala esse que precisa da permissão do branco para que a gente acesse. Óbvio que esse apoio e esse acesso é muito importante, mas que tal abrir espaço para que uma galera preta faça seu próprio rolê de techno? Me parece que essa independência ainda está distante, porque as pessoas querem sempre fazer o papel do "branco bonzinho" que abre espaço dentro do seu próprio rolê pra galera preta dar um close, mas ainda não vi ninguém cedendo o lugar, de fala, de privilégio e o lugar físico

mesmo, para que a gente faça e fale por nós mesmos. Quem tá com seu lugar estabelecido, com seu protagonismo, não quer abrir mão dele. Tem alguns rolês acontecendo muito na raça, tipo Tormenta, Marsha, Namíbia e outros, mas ainda é muito pouco e a concorrência com os rolês brancos estabelecidos é imensa. Eu quero ainda ver um rolê de techno onde os, organizadores, produtores e pessoas com poder de decisão sejam pessoas pretas. É legal ver gente preta em todos os lugares num rolê e acho que é muito importante que as festas feitas por brancos continuem abrindo esse espaço, mas sonho como dia que os rolês feitos por pessoas pretas tenham a mesma importância no calendário das festas que os outros rolês têm e que essas pessoas, eu inclusive, tenham o mesmo reconhecimento e segurança financeira que os produtores brancos têm.”

Último aviso!
a arte retoma suas principais funções: a informação, o protesto e a denúncia.

Este ato não é o suficiente.
Que estejamos na estrutura e não só no espetáculo. A reparação ainda não começou.

cotas.espaço.rave - um texto construído em diálogo por Núbia, Xampy, Milena, Quebrantxy e Apolinário.