DIÁLOGOS:

Conversas entre nossos residentes e artistas convidados:





















Baroque Angel

30/05/2020

Gravado em Porto Alegre 

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Diálogo:

Baroque Angel, é dj há 3 anos, produtor desde 2019 e tem grande importância na cena LGBTQIA+ de Porto Alegre; produzindo a festa TTTTT e com suas residências na festa HOT do DOMA CLUB e na festa Sexposed no club Cabaret. 
Primeiramente muito obrigado pela sua participação na edição Doce Antúrio, seu set foi bem especial fechando nossa pista digital no dia 30/05. Quais foram suas influências e vontades para gravação deste set?

"Muito obrigado a vocês pelo convite! Foi uma festinha muito especial pra mim também :) As ultimas 3 tracks que toquei na Doce Antúrio são do meu primeiro EP, que vou lançar em seguida; foi a primeira vez que incorporei um numero maior de tracks autorais em um set, então foi muito bacana e marcante pra mim. Desde o inicio da quarentena comecei a produzir esse EP e esse set foi um resumo do que tem me inspirado pra compor ele; house old school e uns synths estranhos de acid tem me inspirado muito, e tentei misturar essa estética com um pouco do material autoral que venho produzido."


Seus mixes e produções musicais sempre são atrelados a produções visuais muito interessantes, também produzidas por você. Como vê a importância de paralelos entre a expressão visual com a musical?

"Sempre foram coisas que andaram juntas na minha cabeça. Curto muito criar conteúdo visual pro meu instagram e, desde 2017, quando comecei a gravar sets pra postar no soundcloud, eu pensava em um conceito que tinha um som e uma arte. Já fiz sets baseados em artes que criei, e artes em cima de sets que construí. Uma coisa não vem necessariamente antes ou depois da outra, mas sempre quando organizo minhas idéias e crio algo com música, isso sempre tem uma forma visual também."



Recentemente você lançou a música Drama e já vem há algum tempo também atuando na produção musical.  Como é seu processo na criação de músicas? 

"Então, comparando com meu trabalho como DJ, me auto intitular um produtor musical ainda é algo bastante novo pra mim. Eu venho inventando coisas com produção desde 2016, mas isso tomou outro rumo nos últimos dois anos, comigo descobrindo o que queria dizer e quais elementos sentia que faziam parte do meu som. Mas, desde que comecei a me sentir mais confortável a produzir minhas músicas, venho aprendendo muita coisa, então to testando muitas formas diferentes de criar, sem me amarrar à nenhuma regra. Tem sido bacana colaborar com amigos produtores também, e entender outros processos criativos que não seriam óbvios pra mim; me inspira muito ver pessoas que eu gosto tendo idéias e me ensinando coisas."


Você é um dos produtores da festa @ttt.tt.tt.ttt aí de Porto Alegre . Que tem residentes e lineups majoritariamente compostos por pessoas LGBTQIA+. Consegue contar pra gente um pouco sobre o projeto?

"A falta de representatividade LGBTQIA+ na cena de DJs de Porto Alegre sempre foi algo que me assustou. Nossa comunidade foi quem construiu a cena clubber do chão pra cima, e era muito fora de contexto a idéia de, não só não ser a maioria, como fazer falta a representatividade dentro desse grupo. Isso mudou bastante nos últimos 5 anos, mas o intuito da criação da TTTTT sempre foi justamente frisar e reforçar essa idéia. Eu, PV5000 e Bella produzimos o rolê pensando sempre em abrir espaço pra representatividade das minorias e  incentivar também a criação de conteúdo em outros campos que não só o da música, desde as artes das festas com artistas visuais, até pontos de venda de marcas de pessoas LGBTQIA+ em algumas edições."


Perguntas rápidas:
Música que influenciou sua produção recente, Drama:
"Duas tracks que me inspiraram muito foram Cosmic Courier do M5003MB, e Acperience, do Hardfloor."



Música que te marcou nas pistas antes da pandemia:
"Puts, que saudade! A ultima TTTTT foi no final de semana antes do início da quarentena, então são muitas boas memórias hehe No verão, eu tava obcecado por Trip To The Moon Pt. 3 do Acen, e foi perfeito tocar ela. Também toquei o remix do Dj WhiteShadow de Scheiße da Gaga e foi bafo."



DJ que influenciou você a querer ser dj de música eletrônica:

"Porto Alegre tem muitos DJs que são muito queridos pelo meu coração e que me inspiraram muito pra isso, mas com certeza PV5000, GB e Fran Piovesan tiveram uma influência muito grande sobre eu querer começar a tocar musica eletrônica."



Live que assistiu durante a quarentena e gostou muito:
"Vou ser obrigado a ser puxa saco e falar que foi a Doce Antúrio <3 hehe Eu amei demais o line que vocês criaram, e amei cada um dos sets por motivos diferentes. A abertura do Naves Cilíndricas é provavelmente o meu set favorito do ano, fora o set do Gezender e do Brug que moram no meu coração. Foi uma honra muito grande fechar esse rolê!"








Baroque Angel conversa com Brugnara

Design: Image Fiction + Oujuca











Lagoeiro

20/05/2020

Gravado em Belo Horizonte 
Cdjs 2000 + DJM 900 

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Video Live





Diálogo:

Lagoeiro é DJ e um dos co-fundadores da Masterplano lá de Belo Horizonte, no dia 20/05 teve live dele na nossa página. 

Amigo, primeiramente muito obrigado pela sua participação. Seu set na live quarta-feira (20) tava uma delicia. Como foi o processo de gravar esta live/mix para a Versa?

"Eu que agradeço pelo espaço. Venho acompanhando a Versa à distância e eu aprecio muito o cuidado com que vocês constroem a festa visualmente, e sempre tive vontade de fazer parte. O set foi gravado na sala da minha casa com o dois CDJs 2000 da Masterplano e um mixer DJM900 que peguei emprestado com o Lelê do Deputa (obrigado Masterplano e Deputa!). Tava frio no dia então eu coloquei umas roupas quentes e fui tocar. Tentei fazer com que o set começasse um pouco mais soturno e fosse atingindo um pico de euforia ali pelo meio para depois se acalmar em direção ao fim."


Qual foi o momento que decidiu iniciar na carreira de DJ?

"Apesar de ter tocado esporadicamente quando eu ainda era estudante, eu acho que eu passei a me entender como DJ mesmo a partir de 2015, quando começamos a Masterplano. Era um grupo de amigos que estava com muita vontade de ouvir e dançar música eletrônica e não queria ter que se mudar de cidade pra fazer isso. E, nesse momento, a gente não conseguia se enxergar nos espaços dedicados à música eletrônica que existiam em Belo Horizonte. A gente queria festa boa e precisava de DJs. E foi assim, no susto, que eu tive que me apresentar como DJ de uma forma mais organizada e não parei desde então."


E no seu processo como artista, teve algum momento que causou impacto e influenciou seu modo de tocar?

"Não sei se eu consigo detectar um único momento em que a chave virou para mim, mas eu acho que eu consigo nomear algumas momentos. Primeiro, eu acho que estar fora de casa é sempre uma boa oportunidade para ser impactado por música de uma maneira que te dê ideias, né? Eu morei em Londres para estudar entre 2012 e 2013 (por conta de uma bolsa de estudos do governo brasileiro) e eu inevitavelmente tive muito contato com garage, acid house, drum’n’bass, bass e jungle por lá. Lógico que no primeiro contato eu não fazia ideia do que eu estava ouvindo, mas hoje eu entendo um pouco melhor quais sons eram aqueles e eu percebo que isso acabou sendo importante para eu me tornar mais sensível a esse tipo de música. Depois, de volta ao Brasil e antes da Masterplano, fui encontrar a minha amiga e parceira Acaptcha, que tinha se mudado de BH para São Paulo em 2014, e nós fomos juntos a algumas edições da Voodoohop e da Capslock, e eu acho que esses foram momentos importantes também para entender que dava pra experimentar música eletrônica de outras formas em nossas cidades brasileiras. A edição de 2017 do RBMA São Paulo foi muito especial para mim também. Acho que assim como muita gente, naquela época eu não sabia quem era a Honey Dijon e descobri-la tocando naquela pista menor do festival, com suor escorrendo pelas paredes no meio de um monte de resquícios industriais foi com certeza um momento inspirador. "


A Masterplano é um coletivo de pessoas envolvidas com arquitetura em sua formação; e tem como intenção reativar espaços ociosos/subutilizados e trazer novos usos para espaços públicos através das manifestações festivas e culturais. Em São Paulo desde o início da gestão Dória e agora com o Covas, é quase impossível ocupar a rua legalmente, alvarás chegam a ser negados no dia. Dentre as experiências que tiveram no passado e levando em conta que Minas Gerais tem um governo ultra liberal, consegue ver alguma diferença no poder de ação de vocês hoje? As coisas ficaram mais difíceis?

"No que diz respeito a legalização, era tudo muito mais fácil no começo da Masterplano. Não porque os processos burocráticos era mais amigáveis, mas sim porque nós ainda éramos invisíveis e portanto, passávamos despercebidos pela polícia e pela fiscalização. Mas à medida que as festas foram sendo mais reconhecidas, a vigilância foi aumentando e começamos a ser cobrados pela legalidade. Aí tudo começou a ficar mais difícil… Mas apesar do governo do estado de Minas Gerais ser mesmo conservador e, como você disse, ultra liberal, a nível municipal, Belo Horizonte é bem diferente. Nós temos as vereadoras progressistas do mandato coletivo da Gabinetona e elas estão muito dedicadas a abrir canais de diálogo com a cultura e a juventude porque são pessoas que vieram desse lugar. E desde que elas começaram a atuar, nós participamos junto a representantes dos movimentos de funk, hip hop e reggae de audiências públicas na câmara municipal para discutir a legalização e a repressão policial nas festas. Isso fez com que a prefeitura começasse um trabalho para desburocratizar a ocupação do espaço público e entre o final de 2019 e o começo desse ano, a regulação urbana estava revisando o processo para emissão de alvará, para torná-lo mais fácil e acessível, e isso é uma resposta à nossa luta. Além disso, a nossa atual Secretaria Municipal de Cultura entende e reconhece a cena de música eletrônica não como entretenimento, e sim como cultura, abrindo portas para que as festas escrevam projetos capazes de ser contemplados por editais públicos, o que não pode ser o único caminho para a nossa atuação, mas sem dúvida é uma possibilidade para pensarmos uma dimensão mais pública, democrática e educativa para a música eletrônica."


A Masterplano foi o primeiro rolê de música eletrônica que eu fui. Foi numa edição na Praia da Estação em 2015 se não me engano, que caiu um toró. Foi sem dúvida o momento onde muita coisa mudou para mim, quase que um "cair na real” e sou muito grato a isso. Como você vê os impactos socio culturais e também pessoais/individuais promovidos pela rave?

"Haha, que ótima essa memória, fico feliz de ouvir. Eu acho que das potências da rave urbana, a que mais me encanta é a forma como ela é capaz de injetar imaginação em nosso cotidiano. Ela nos apresenta outras formas de enxergar a cidade e é capaz de transformar qualquer ambiente hostil em um parque de diversões. E eu gosto de entender isso como qualidade de vida. E eu acho que em nossas metrópoles isso é muito urgente para quebrar a dureza do nosso dia-a-dia de trabalhador. Mas isso não é exlclusivo da rave. É também uma característica do carnaval, do baile funk, do hip hop e de tantas outras manifestações festivas e musicais que existem no Brasil."


Perguntas rápidas:
Qual selo vem marcando sua pesquisa mais recente?

"Bbbbbbrecors"



Música que da aquela saudade da pista da Masterplano.

"Electrain, Maruwa. De manhã, é claro."



Set que escutaria pra acalmar a mente.

"O último set do João Nogueira para a A-MIG é super bem vindo nessas horas. "



Track que achou durante a quarentena e quer muito tocar logo nas pistas.




Lagoeiro conversa com Brugnara

Design: Image Fiction + Oujuca

Curadoria Visual e Fotografia: Rafael Baumer









Giorgia Narciso 

Estas fotos integram os visuais da edição digital Equilíbrio, lançada no dia 24/04/2020, fotos tiradas por Ana Matheus Abbade

Diálogo:


VERSA digital Equilíbrio: Giorgia Narciso


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Fudida Silk





































Giorgia Narciso é natural do Rio de Janeiro. Artista visual, modelo e roteirista. É inspirada por vivências travestis, literatura, moda e cinema. Encontra em seu trabalho uma forma de registrar suas histórias e percepções da vida, contribuindo para a produção de cultura e assimilação de pessoas trans nos espaços. Giorgia é integrante do coletivo de pessoas T @fudidasilk


Preciso dizer que foi monumental para mim nossa experiência de troca, desde o momento que te escrevi incluindo nossa tarde no ibirapuera e todo os momentos até agora. acredito muito nessa relação entre a energia íntima e a construção de um nome, tema, que nessa edição foi Equilibrio.


"Ownt, neneca. Muito obrigada. Para mim também foi muito importante; me fez pensar muito. E é sobre afetos também."


Gostaria que você se apresentasse, entrelaçando pessoal e profissional-artístico.


"Eu já me apresentei algumas vezes e sempre fico meio travada. rs Mas, na real, eu já tenho bem nítido pra mim que o meu envolvimento com Arte, para além de questões narcisísticas, é um exorcismo de muita coisa. Eu entro em conflito com isso as vezes, porque é meio contraditório pra mim... Eu tento me elevar espiritualmente e me conectar com coisas boas, ter um olhar bonito da vida. Mas é isso; na minha história, infelizmente houveram muitas coisas que foram sombrias. E criar me ajuda a lidar e ressignificar. É um lugar de esperança e sonho também."


Eu percebo um envolvimento constante seu deambular entre sistemas e linguagens. Se apropriando e ao mesmo tempo construindo caminhos próprios para produzir e inventar sua história. Gostaria de ouvir sua perspectiva sobre as palavras 'sistema' (da produção de arte, moda e conteúdo) e da 'linguagem' (que permeia gravuras, desenhos, coletivos).

"Hnm; eu entendo sistema como um funcionamento que é dado, né?! Existe toda uma estrutura "oficial" que valida as práticas e narrativas. Uma grande convenção que, infelizmente, majoritariamente ainda mantém a exclusão de grupos dos acessos que ela dispõem. E não só nas Artes, né?! Em cada uma das linguagens no Macro.

Antes de refletir muitas dessas coisas; na infância e adolescência, eu tentava me adaptar ao máximo ao que era definido como elevado e bem aceito. Muita auto rejeição. Várias visões elitistas da vida. Acho que reflexo de ter crescido em uma família de "serviçais" e, de alguma forma, acessar de um jeito muito problemático a realidade burguesa. Sei lá... Em termos de Artes Visuais, eu fiz a Escola de Belas Artes da UFRJ, que é uma das mais "clássicas" e tive acesso às linguagens da história da Arte pelo viés Acadêmico. Mas, me aproximando de outros movimentos, e principalmente, de outros Artistas com quem eu me identificava, eu fui moldando minha produção; que acho, é uma mistura de todas essas experiências. Ainda tem muita coisa que eu tenho vontade de fazer e desenvolver."


Acho interessante a associação possível entre 'moldando minha produção' e 'ressignificar'. Acredito que isso é muito no que cerne a construção de uma coletividade, a sua participação na Fudida Silk pode ser comentada aqui ?

"A Fudida Silk é um projeto muito importante pra mim. Principalmente porque ele fala, essencialmente, sobre união de forças para gerar renda, produção de Cultura, afetos e trocas de conhecimentos, vivências. De pessoas trans para pessoas trans.  E ser parte desse coletivo é grande motivo de orgulho pra mim."


Você citaria referências, também na arte, que estimulam você?

"Ventura Profana, Élle de Bernardini, Castiel Vitorino, Agrippina R. Manhattan, Renata Carvalho, Alice Yura, todes que integram a Fudida, Você, Ana, amo seus processos de criação.✨ Enfim... tem muita gente babado. rs"



Você toca na vivência e me remete diretamente nos seus desenhos, e principalmente na gravura que estava na exposição A retomada da Imagem será a presença, em suas gravuras havia um fluxo entre família e troca.

"Sim; Mamile e Eu. É sobre a minha mãe, minha principal referência de feminilidade. O que é engraçado, porque ela não reproduz muitos dos estereótipos do que é ser considerada feminina. (Isso tudo já é uma grande loucura, né??!! haha vários panos pra papo de travesti). Já no Bixa Preta, Travesty e Sapatão; é sobre eu e meus primos; que somos os LGBT's da família; crescemos juntos e temos uma irmandade que sempre foi muito forte. Foi a primeira exposição que eu participei. Eu escolhi essas duas gravuras, exatamente porque elas falam de começos."


É um dimensão são da sua poética que é incessante, corre como fluxo. A transformação do cerne em  Desde então você tem dado uma sequência ao processo da gravura e desenho?

"Tenho sim. Principalmente interseccionando linguagens. Eu gosto de misturar tudo; escrita, performance, vídeo, fotografia... acaba se tornando uma coisa só; mas híbrida."


Essa conexão entre feminilidade e familiaridade é muito latente e diz absolutamente sobre formas muito dicotômicas que na sua narrativa esboçam uma permanência pelo vínculo conciliado, não apaziguado, porque a diferença está lá mas Mãe é Mamile. E é já outra coisa.


"É, é uma leitura. Refletindo sobre essa análise e pensando sobre a imagem; ela me remete a muitas coisas. Ela foi baseada em uma fotografia, onde nós estávamos de mãos dadas, fazendo exatamente a mesma pose; com a mão livre na cintura.... Eu chamo, carinhosamente, minha mãe de mamile, desde a infância. eu escrevo dessa forma, mas o som é mamilee. E nós tivemos muitas rupturas e re-conexões na vida."


Geralmente eu empreendo cortes na conversa e peço por um recado para o seu momento presente. Algo que gostaria de deixar.


"Ah; eu acabei de falar sobre minhas re-conexões com a minha mãe. Meu conselho então vai seguir esse fluxo... É um paradoxo, mas acho que cabe bem. Em tempos de isolamento social, encontrar uma forma de reconectar laços afetivos que estão distantes. Estar presente, at all."


Giorgia Narciso conversa com Ana Matheus Abbade







VERSA digital Equilíbrio: João GG

24/04/2020

Unpolished Stones, 2019 

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Diálogo:

João GG é um dos artistas que integrou os visuais da última edição VERSA digital Equilíbrio com o video Unpolished Stones, 2019.  

João, gostaria de agradecer sua participação e disposição com a atual edição da Versa: Equilíbrio. Nosso diálogo transitou em diversas camadas, uma vez que a festa aconteceria em evento físico e se transformou em uma dimensão digital. Como se deu sua incursão com a prática artística e as influências de São Paulo?

"Minha prática artística começou num ambiente acadêmico e foi então se espalhando para uma série de ambientes em que percepção, estética e visualidade estão sempre presentes: museus, galerias, shows, desfiles de moda, espaços comerciais, festas e outros tipos de eventos temporários. É curioso porque ao mesmo tempo que eu me sinto um artista de ateliê num sentido bem clássico (fazer objetos e planejar coisas com uma certa paciência, num ambiente “retirado” do fluxo de estímulos da vida quotidiana da cidade), grande parte da minha prática é orientada para eventos, espaços específicos e situações transitórias – espaços-tempos que são a própria vida cultural quotidiana da cidade. Eu tenho pensado nisso como um movimento dialético de observar a vida na cidade; me retirar dela para pensar e trabalhar; retornar a ela para interferir sobre ela. Várias escolhas estéticas do trabalho vieram sem sombra de dúvida da minha vivência pessoal na cidade: o apreço por climatização de luz; o hipercromatismo, o planejamento meticuloso do uso do espaço; a familiaridade com materiais de arquitetura temporária. Tudo isso tem a ver com imagem e aparência, mas imagem e aparência integralmente aplicadas a dinâmicas reais de circulação nesses espaços urbanos. Minha prática artística “vai e volta” de São Paulo a toda hora."


Você constrói em muitos momentos um jogo de cena entre vitrines, cenografia e pintura de um modo muito além da referência. São operações estéticas que acontecem e determinam as maneiras com as quais percebemos, nos movemos e imaginamos conexões entre as obras. Como compreende essa transição entre o objeto estético e a sua construção autônoma de um ambiente? Você insere a festa como uma espacialidade que te reverbera inspiração?

"Na descrição no começo da pergunta, parece que você está falando de um jogo barroco de espelhos e imagens. E é isso mesmo, de certa forma. As minhas operações estéticas são inespecíficas: tem horas que é mais iluminação; noutras, é mais construção de cenografia; noutras, inserções pontuais de objetos chamativos; noutras, ainda, sobreposições de som e vídeo. Eu acho que isso vêm de sempre tentar entender os ambientes em que minha arte circula na totalidade de sua complexidade – eu quase nunca conto com a “sacralidade” de um ambiente, com a ficção museológica de que a arte vai estar flutuando isoladamente no espaço. Os meus projetos tendem a incorporar os ruídos, fluxos e especificidades dos espaços pros quais foram pensados. Ou então, quando os ambientes são muito básicos, criar essa complexidade com rebatimentos e teatralidade espacial. É essa complexidade totalizante que você está chamando de ‘construção autônoma de um ambiente’; na realidade, meu trabalho não é autônomo em relação a quase nada – ele reconhece e brinca com a não- autonomia das coisas e dos espaços. Nesse sentido ele é, sim, todo construído. Festas me provocam muita inspiração, sim – elas geralmente são cheias de apelos sensoriais e efeitos de ilusionismo, coisas pelas quais tenho apreço. Festas também são espaços que fogem um pouco ao controle social – uma imprevisibilidade interacional que é reposta no trabalho. Assim como em festas, eu não tenho como (e nem quero) prever direito como as pessoas vão responder a uma quantidade enorme de estímulos. Mas tampouco me parece ser “só” sobre isso, porque tem um outro lado do trabalho, mais apolínio – uma parte considerável dele também ‘funciona de dia’ (contém luzes e cores mais diurnas, estruturas menos caóticas). Isso é bem perceptível no Banheirão. Eu também tenho uma tendência muito antagônica a isso tudo, de esquadrinhar espaços, geometrizar e padronizar formas e iluminar tudo por todos os lados. Isso não tem nada a ver com festa [risos]."


O binômio exuberância e contemplação te comunicam?

"Sem dúvida alguma. Sobre exuberância, complexidade sensorial e ruído eu já falei bastante na resposta anterior. Isso é o mais auto-evidente no meu trabalho, poucas pessoas não percebem meu trabalho como exuberante ou espetacular (e todas as associações positivas e negativas que isso contém). Mas eu também tenho uma relação enorme com a noção de contemplação. Se eu gosto de criar cenas e efeitos, é porque eu também gosto, na mesma medida, de ficar olhando atenciosamente para eles. Contemplação em arte é sobre um estado quase meditativo de perceber as coisas – se dar o tempo e o direito de olhar fixamente para alguma coisa, sem ansiedade, e conseguir pensar e elaborar sobre as sensações provocadas por aquilo. É aquela janela reflexiva da experiência estética – uma viagem mental que acontece quando a percepção é ligeiramente deslocada do “normal”."


O momento atual tem te interpelado à busca de outros processos? Você poderia citar algumas músicas, conteúdos etc. que têm acompanhado você?

"A experiência da quarentena tem me deslocado absurdamente, sim. Eu já vinha num processo de redução de ritmo de trabalho desde o final do ano passado e começaria, em abril, a trabalhar na produção de uma nova exposição individual. Isso foi completamente congelado – nem tanto pela impossibilidade física de produzir, mas pelo entendimento de que muita coisa vai mudar no mundo pós-COVID, na linguagem e na percepção das pessoas. Então não faz sentido eu produzir agora novas obras cujas ideias foram concebidas no semestre passado. Me pareceu mais prudente parar pra pensar um pouco, investir na vida interna, em leitura, na escrita, na autocrítica. Minha única produção objetal pós- quarentena foi essa instalação-vitrine ‘Hiperobjeto’ na galeria Verve, composta pela recombinação de componentes pré-existentes de instalações anteriores. Ou seja, tem a ver com trabalhar com o que já se tem em mãos – algo raro pra mim. Também ando muito mais focado em elaborar e aprofundar pensamento – eu tenho lido e pesquisado sobre muitos interesses que vinha protelando há um tempo. Estou escrevendo um texto crítico-analítico sobre a peça do Ilê Sartuzi, ‘cabeça oca espuma de boneca’. É a primeira vez que eu faço isso, de publicar algo escrito sobre a obra de outro artista – esse processo precipitou muitas ideias sobre subjetividade, prática artística, história da arte e psicanálise. Fora isso, estou lendo dois livros: The Mushroom at the End of the World: On the Possibility of Life in Capitalist Ruins (Anna Tsing) e Exotic: A Fetish for the Foreign (Judy Sund). O primeiro é uma espécie de pesquisa antropológica sobre o matsutake, um cogumelo que cresce em solos devastados pela atividade humana, e é muito valorizado pelos japoneses. O segundo é uma revisão historiográfica sobre a noção de ‘exotismo’, o processo de estranhamento, supervalorização e apropriação de elementos específicos de culturas distantes por outras culturas poderosas. Os dois livros são não-ficções extremamente elaboradas, e são deliciosos de ler – ótimo pra viajar sem sair do lugar, ótimo pra quarentena. Na música, eu tenho ficado numa espécie zona de conforto minha: ladies of the canyon / esses álbuns clássicos de vocal feminino meio folk californiano dos anos 70. Ainda tenho ouvido muito La Vita Nuova, o último álbum da Christine and the Queens. Ou seja, músicas harmônicas / easy listening, que deixam o ambiente de casa agradável. É a prioridade do momentoJ. Ah, gostei bastante dos lançamentos recentes de dois artistas que eu acompanho: Fetch The Bolt Cutters (Fiona Apple) e Set My Heart On Fire Immediately (Perfume Genius). Ambos tem percussão e instrumental experimentais – são ricos em textura, outra coisa que eu amo, independente do medium – e vocais estranhos e sofisticados. Eu ando totalmente negligente pra filmes, mas vi duas séries no Netflix de que gostei muito: The Midnight Ghospel, uma animação super densa sobre morte do ego / luto e melancolia / processos psíquicos e consciência; The Story of God, uma docussérie narrada pelo Morgan Freeman, sobre a lida com a vontade humana de transcendência ao longo história, nas perspectivas de várias culturas e religiões."


No vídeo Unpolished Stone existe uma dualidade entre a forma, de volume digital e saturada, com o plano de fundo. Assim como o ritmo da montagem e a trilha sonora. Como você comenta a escolha dos minérios que são personagens da narrativa?

"Bem observado, esse vídeo é uma sequência de escolhas compositivas (muitas delas dualistas). Eu também vejo ele como uma mini-narrativa não verbal de movimentos físicos, em que uma história simples é contada através de processos técnicos, somente: programação de movimento dos objetos, variações de enquadramento, movimentos de câmera, desenho dos cortes, associações entre som e imagem. Esse vídeo foi originalmente produzido como fundo audiovisual para uma instalação física homônima, que incluía em primeiro plano esculturas reinterpretativas dessas mesmas pedras, feitas nessa técnica de isopor e látex. Esse trabalho foi comissionado pelo Ilmin Museum (Seul) para a exposiçãoDear Amazon: The Antropocene. Foi um dos trabalhos de arte mais complexos e ambiciosos que já fiz: pré-produzido à distância, inteiramente voltado para contemplação numa cultura completamente distinta da minha, com a qual meu repertório comum era basicamente restrito a clichês internacionais dos dois países. Então a escolha de pedras brasileiras semipreciosas como atores não-humanos tem a ver com isso, num primeiro momento. É uma certa imagem de Brasil, que circula o mundo inteiro e chega na Coréia com todas as mediações imagináveis: imagem de paraíso natural autoprojetada pelo Brasil; reproduzida pelos EUA, Europa e Japão; absorvida pela Coréia como imagem da imagem da imagem. O referente é super longínquo.

Meu trabalho há algum tempo já explorava referências tectônicas e minerais. Mas em Unpolished Stone essas referências ganharam precisão e especificidade. Escolhi as 7 pedras num revendedor de minérios em São Paulo: Vanadinita, Barita+Galena, Bornita, Pirita, Turmalina Negra, Mica, Crisotila. Os critérios foram intuitivos e flexíveis, mas revolvia em torno de: percepção de beleza / exotismo; riqueza e hibridismo de textura; variação e saturação cromática; existência de propriedades físicas específicas de cristalização. Era um pouco uma lógica de mostruário expositivo, de “amostragem do extraordinário”. Não deixa também de ser uma lógica queer, de ver beleza nas diferenças. Por trás disso tudo também tem um desejo muito básico e primordial de poder esculpir formas absolutamente diferentes e me divertir no processo, já que faria as ampliações em isopor à mão."



O deslocamento de exportação-importação do recurso natural é contrabalanceada com sua reelaboração em dados digitais, a pedra é refeita e por sua vez migrada sob forma holograma. Existe uma invocação de um circuito, tráfego?

"Eu gosto que meus trabalhos tenham múltiplas camadas, algumas totalmente superficiais e imediatamente acessíveis, e outras voltadas pra quem se debruça sobre detalhes. Unpolished Stone é cheio dessa fractalidade de decisões compositivas. Primeiramente, dá pra ver aquilo tudo somente como uma instalação multimídiatica colorida e sedutora, como espetáculo, entretenimento puro. Dá pra ver também como um trabalho de aglutinação de clichês nacionais (exuberância natural + videoclipes de K-Pop). Dá pra ver, ainda, como uma menção simbólica à escatologia ocidental do apocalipse (o número 7, a transformação das pedras em totens-monumentos, o discurso de morte contido na transformação das pedras em imagens e isopor). Tem coisas aí que só são legíveis a partir do contexto expositivo mesmo, do tema da exposição (antropoceno).

Mas existe, sim, no planejamento de produção e nas escolhas formais do trabalho, uma invocação de circuito de comércio internacional, de rotas de importação e exportação. Pela enorme dificuldade técnica e custo de mandar peças físicas grandes para [literalmente] o outro lado do mundo, eu comecei a pensar nas especificidades da arte enquanto bem de circulação internacional, tal qual os minérios, a soja, ou o k-pop. Coisas que são intencionalmente produzidas para fluir livremente no sistema internacional de comércio. Ora, arte contemporânea não é uma commodity homogênea tal como a soja, mas está igualmente submetida a regras físicas de circulação. Já o K-Pop circula livremente no mundo pois é calculadíssimo para aderir totalmente aos códigos musicais e visuais do capitalismo tardio. Ele não tem nenhuma barreira física nem linguística, ele é o produto absoluto. Então meu desafio surgiu desse problema: como “teletransportar” um trabalho de arte gigante a contrapelo, ou, alternativamente, como “rematerializar” monolitos do outro lado do mundo. O jeito foi fazer com que a matéria não viajasse de fato, que só viajasse o essencial, a ideia da matéria (os renders 3D, o vídeo e eu). O plano físico sendo refeito com uso de matérias primas igualmente globalizadas, genéricas, mas locais (no sentido mais literal do termo, de algo que está disponível e barato ali – isopor, ferro, tintas, lâmpadas). Daí a escolha de digitalizar pedras, transformá-las em imagem manipulável e vídeo. É uma exportação em arquivos de render 3D, que podiam inclusive ser usados para impressão 3D. A ideia era essa, mas o custo ainda é proibitivo pra essa escala, de forma que acabei refazendo-as a mão a partir de observação. Tudo se teletransporta bem para qualquer lugar, desde que em baixa resolução."


João conversa por Ana Matheus Abbade