Giorgia Narciso 

Estas fotos integram os visuais da edição digital Equilíbrio, lançada no dia 24/04/2020, fotos tiradas por Ana Matheus Abbade

Diálogo:


VERSA digital Equilíbrio: Giorgia Narciso


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Fudida Silk





































Giorgia Narciso é natural do Rio de Janeiro. Artista visual, modelo e roteirista. É inspirada por vivências travestis, literatura, moda e cinema. Encontra em seu trabalho uma forma de registrar suas histórias e percepções da vida, contribuindo para a produção de cultura e assimilação de pessoas trans nos espaços. Giorgia é integrante do coletivo de pessoas T @fudidasilk


Preciso dizer que foi monumental para mim nossa experiência de troca, desde o momento que te escrevi incluindo nossa tarde no ibirapuera e todo os momentos até agora. acredito muito nessa relação entre a energia íntima e a construção de um nome, tema, que nessa edição foi Equilibrio.


"Ownt, neneca. Muito obrigada. Para mim também foi muito importante; me fez pensar muito. E é sobre afetos também."


Gostaria que você se apresentasse, entrelaçando pessoal e profissional-artístico.


"Eu já me apresentei algumas vezes e sempre fico meio travada. rs Mas, na real, eu já tenho bem nítido pra mim que o meu envolvimento com Arte, para além de questões narcisísticas, é um exorcismo de muita coisa. Eu entro em conflito com isso as vezes, porque é meio contraditório pra mim... Eu tento me elevar espiritualmente e me conectar com coisas boas, ter um olhar bonito da vida. Mas é isso; na minha história, infelizmente houveram muitas coisas que foram sombrias. E criar me ajuda a lidar e ressignificar. É um lugar de esperança e sonho também."


Eu percebo um envolvimento constante seu deambular entre sistemas e linguagens. Se apropriando e ao mesmo tempo construindo caminhos próprios para produzir e inventar sua história. Gostaria de ouvir sua perspectiva sobre as palavras 'sistema' (da produção de arte, moda e conteúdo) e da 'linguagem' (que permeia gravuras, desenhos, coletivos).

"Hnm; eu entendo sistema como um funcionamento que é dado, né?! Existe toda uma estrutura "oficial" que valida as práticas e narrativas. Uma grande convenção que, infelizmente, majoritariamente ainda mantém a exclusão de grupos dos acessos que ela dispõem. E não só nas Artes, né?! Em cada uma das linguagens no Macro.

Antes de refletir muitas dessas coisas; na infância e adolescência, eu tentava me adaptar ao máximo ao que era definido como elevado e bem aceito. Muita auto rejeição. Várias visões elitistas da vida. Acho que reflexo de ter crescido em uma família de "serviçais" e, de alguma forma, acessar de um jeito muito problemático a realidade burguesa. Sei lá... Em termos de Artes Visuais, eu fiz a Escola de Belas Artes da UFRJ, que é uma das mais "clássicas" e tive acesso às linguagens da história da Arte pelo viés Acadêmico. Mas, me aproximando de outros movimentos, e principalmente, de outros Artistas com quem eu me identificava, eu fui moldando minha produção; que acho, é uma mistura de todas essas experiências. Ainda tem muita coisa que eu tenho vontade de fazer e desenvolver."


Acho interessante a associação possível entre 'moldando minha produção' e 'ressignificar'. Acredito que isso é muito no que cerne a construção de uma coletividade, a sua participação na Fudida Silk pode ser comentada aqui ?

"A Fudida Silk é um projeto muito importante pra mim. Principalmente porque ele fala, essencialmente, sobre união de forças para gerar renda, produção de Cultura, afetos e trocas de conhecimentos, vivências. De pessoas trans para pessoas trans.  E ser parte desse coletivo é grande motivo de orgulho pra mim."


Você citaria referências, também na arte, que estimulam você?

"Ventura Profana, Élle de Bernardini, Castiel Vitorino, Agrippina R. Manhattan, Renata Carvalho, Alice Yura, todes que integram a Fudida, Você, Ana, amo seus processos de criação.✨ Enfim... tem muita gente babado. rs"



Você toca na vivência e me remete diretamente nos seus desenhos, e principalmente na gravura que estava na exposição A retomada da Imagem será a presença, em suas gravuras havia um fluxo entre família e troca.

"Sim; Mamile e Eu. É sobre a minha mãe, minha principal referência de feminilidade. O que é engraçado, porque ela não reproduz muitos dos estereótipos do que é ser considerada feminina. (Isso tudo já é uma grande loucura, né??!! haha vários panos pra papo de travesti). Já no Bixa Preta, Travesty e Sapatão; é sobre eu e meus primos; que somos os LGBT's da família; crescemos juntos e temos uma irmandade que sempre foi muito forte. Foi a primeira exposição que eu participei. Eu escolhi essas duas gravuras, exatamente porque elas falam de começos."


É um dimensão são da sua poética que é incessante, corre como fluxo. A transformação do cerne em  Desde então você tem dado uma sequência ao processo da gravura e desenho?

"Tenho sim. Principalmente interseccionando linguagens. Eu gosto de misturar tudo; escrita, performance, vídeo, fotografia... acaba se tornando uma coisa só; mas híbrida."


Essa conexão entre feminilidade e familiaridade é muito latente e diz absolutamente sobre formas muito dicotômicas que na sua narrativa esboçam uma permanência pelo vínculo conciliado, não apaziguado, porque a diferença está lá mas Mãe é Mamile. E é já outra coisa.


"É, é uma leitura. Refletindo sobre essa análise e pensando sobre a imagem; ela me remete a muitas coisas. Ela foi baseada em uma fotografia, onde nós estávamos de mãos dadas, fazendo exatamente a mesma pose; com a mão livre na cintura.... Eu chamo, carinhosamente, minha mãe de mamile, desde a infância. eu escrevo dessa forma, mas o som é mamilee. E nós tivemos muitas rupturas e re-conexões na vida."


Geralmente eu empreendo cortes na conversa e peço por um recado para o seu momento presente. Algo que gostaria de deixar.


"Ah; eu acabei de falar sobre minhas re-conexões com a minha mãe. Meu conselho então vai seguir esse fluxo... É um paradoxo, mas acho que cabe bem. Em tempos de isolamento social, encontrar uma forma de reconectar laços afetivos que estão distantes. Estar presente, at all."


Giorgia Narciso conversa com Ana Matheus Abbade