VERSA digital Equilíbrio:
Ivi Maiga Bugrimenko

24/04/2020

Fotos: Equilíbrio 

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Adulto de Boa



Diálogo:

Ivi Maiga Bugrimenko nasceu na Zona Leste de São Paulo. Começou a fotografar quando encontrou uma câmera entre os pertences deixados por seu pai. Sua fotografia é interessada nas cenas do íntimo, ocasionadas por viagens ou reuniões de amigos. Nos últimos anos Ivi vem se dedicado a fotografar festas de música eletrônica e shows de punks sem dissociar o lugar, o afetivo e o esplendor dos relacionamentos. Ivi Maiga Bugrimenko fotografa eventos físicos da VERSA e na interface digital colaborou com uma série de fotografias em que situações iminentes parecem suspender a narrativa.

Oiê! Sempre prazerosa sua presença na VERSA. Conheci sua fotografia quando conheci você, uma pulsão simultânea. Gostaria de partir de uma descrição do seu processo. Como você descreve sua presença quando fotografa eventos noturnos? Indo direto ao ponto: para onde seu olhar é direcionado e por onde passa a decisão de uma foto?

"Eu olho sempre primeiro para o espaço.  Os espaços ocupados, então olho para as pessoas e como elas estão ocupando o espaço, como estão interagindo. em uma festa que dura muitas horas, tipo as raves, esse fluxo vai mudando conforme o percurso da noite.  Eu acho que acabo olhando por último para onde esta todo mundo olhando, que é o dj, ou a banda. Quando eu chego finalmente até o palco, que é o centro das atenções , eu fico bastante tempo prestando atenção em como aquela figura interage com quem tá ali para assistir. Gosto de prestar atenção em como ela se mexe até escolher qual momento ali vou registrar."


Uma atenção singular no momento alegre, não humor, sim em abraços, conversas

"E não é exatamente um método, sabe?  Mas acho que acabo fazendo isso. E claro, eu sempre gosto de registrar os espaços vazios, o lugar que ninguém ocupa, por uma razão ou outra."


Imagino que envolva mais uma exploração da intuição do que um método em si. Esse pensamento do espaço interpelado pelas pessoas, suas ocupações e inabitação é muito caro. Uma certa vontade de testemunho? Ou você nomearia de outra forma?

"É sim uma vontade de testemunho."


Um grau de irreprodutibilidade da experiência e uma espécie descontinuação.

"Sabe que eu sempre penso o trabalho do fotógrafo que está captando uma época vai sempre fazer mais sentido no futuro, quando a gente estiver olhando pro passado. O que vamos ter de lembrança vai ser perpassado por esses registros. A memória é construída né.
Sempre que estou fotografando show, ou festa, ou seja registro de cena eu sempre penso que naquele momento a coisa mais importante é viver o presente. Aproveitar a música, a festa, as pessoas o contato. O que me interessa também é pensa como isso vai ser. Quando estou fotografando eu estou projetando um futuro da lembrança. É meio isso: como vai ser a memória no futuro. Pois a gente vai lembrar, e quando vê uma foto a gente vai rememorar a partir daquilo. A memória não existe por si só."


De alguma forma essa intuição ou o deixar acontecer na experiência noturna repercute na sua vida social, nos momentos de interação com o mundo?

"Sim, esse jeito de ser movida pela intuição é um jeito meu e a fotografia uma maneira de exteriorizar isso para o mundo. Não sou retratista, fotógrafa de moda ou diretora de arte… não sou fotojornalista. Tenho até interesse, mas não é algo espontâneo e me atento ao deixar acontecer e registrar minha atenção com o instante."


Você comenta o fotojornalismo, para além do atual contexto, alguma referência te desperta interesse?

"Quando comecei a tirar fotografias não tinha pretensão sem fazer alguma coisa, mas quando comecei a enviar para alguns amigos sempre me chamam de Nan Goldin hahahahahahaha ficam me zoando. Mas eu gosto do fato de que ela fez um registro de uma época, como um álbum de família e para mim meu trabalho também é. Alguns se lembram do Martin Parr, mas acho que não tem muito a ver. O Wolfgang Tillmans que no seu começo, alguém me lembrou esses dias, fez fotos de festa também. Então até quando eu penso que na verdade  gente começa a tirar fotos e ir mudando o nosso olhar e o que está procurando, eu lembro do Tilmans. Em minhas fotos preto e branco eu tenho a referência do Daido Moriyama, da Provoke, que tem sua vida inteira dedicada a uma solidez estética. Com certeza a Ilse Ruppert também."


Acho muito interessante, a potência, que me faz até mesmo acreditar na imagem, assim por dizer, quando vc diz o futuro da lembrança. É um tempo verbal que não existe, não é o mesmo que o futuro do pretérito, né?

"Realmente não é o mesmo. Quando estou registrando uma festa eu sei que isso será uma lembrança, então é algo que estou fazendo envolvida com o presente e enviada para o futuro."


Agora nesse momento que tudo está suspenso, a situação COVID-19 nos chama para habitar o instante  presente, mesmo quando todos os eventos estão se perdendo na potência da lembrança... uma corrente saudosista se dilui na nostalgia e a distância é marcada por um efêmero live streaming sem gravação (fruto de uma falência do registro), o que é de alguma forma o impacto do instagram: o álbum de fotografia se transforma numa propriedade simbólica de uma empresa que a qualquer momento pode acabar e tudo desaparecer. Algo tem pego seu interesse desde que começou a quarentena? ou melhor, o que tem chamado sua atenção nesses últimos tempos. A live te atrai como espaço para a construção dessa lembrança? ou nesse momento seu interesse deambulou em outro sentido?

"É engraçado que uma coisa que aconteceu durante a quarentena pra mim até agora… Eu tinha um hábito de ficar postando no instagram sempre, todo dia uma foto no instagram e às vezes mais de uma porque tenho três perfis no instagram, então fico mantendo e alimentando essa máquina, essa coisa que serve para unir e para distanciar. E acabo prestando atenção em como as pessoas estão se comportando, no fim minha atenção recai sobre as pessoas e por isso fotografo elas, mas como não posso tirar fotos delas... Fico pensando em quais são esses papéis que as pessoas estão, o que elas estão sentindo, e como elas demonstram o que estão sentindo durante a quarentena. Particularmente me interesso em não estar em uma nostalgia o tempo inteiro, com a saudade da festa e de estar fora, alienada disso o que está no mundo agora e presa num mundo ideal que agora não existe fora da imagem. Tudo isso é nostalgia. Tento ao máximo me afastar de ter essa visão de mundo. Gosto de estar conectada com tudo o que está acontecendo agora, por mais que algumas vezes eu perceba que não faço parte disso, seja por questões geracionais enfim… Gosto de saber, olhar pra frente e respeitar o que acontece hoje sem usar como medida o que é uma referência para o que eu sou. Não sou uma pessoa do livestreaming, definitivamente. Até o momento o que me propus a fazer é registrar com câmera digital as telas habitadas por pessoas, que na verdade continuam sendo só telas."


Interessante o que você comenta sobre nostálgico, ao mesmo tempo que você fotografa com câmera digital sem muitos pixels e câmera de filme.

"Essa coisa de produzir imagem a qualquer custo é algo que não estou habituada. E durante esse período é sobre essa materialidade da foto. Por mais que eu não imprima minhas fotos, a fotografia analogica tem uma materialidade que é a película que sai da câmera e passa por um laboratório, um lugar, e passar por um processo físico até virar digital. Nesse momento que tenho a câmera digital tenho experimentado um pouco mais, para desapegar um pouco dessa matéria mas ao mesmo tempo parece que estamos indo em uma fase tecnológica à força."


Em São Paulo por um tempo teve uma febre do analógico que vinha muito desse lugar nostálgico também, que não funciona pra ler seu trabalho. Cortes abruptos. Gostaria de pedir um recado seu para o presente de quem está nos lendo.

"Difícil dar recado e não parecer brega, ou pretensioso, ou autocentrado… então acho que penso num recado para mim, o que seria muito egocêntrico. Mas… um recado durante a quarentena é que as coisas passam… e isso vai passar também, as pessoas tem medo do futuro, mas o futuro está sendo construído e não sabemos o que vai acontecer e toda mudança todo amadurecimento dói. Acho que estamos sempre à reconstruir, construir possibilidades e me atendo a fotografia a coisa o futuro da lembrança tem esse valor. Quando se olha para uma lembrança ela faz um sentido no momento em que você está vendo, sabe? Isso é não ser nostálgico. Porque você entende quem você foi, qual mundo era e como se reflete no que você é hoje e isso é construir o futuro: não apagando a memória, mas construindo ela."



Ivi conversa com Ana Matheus Abbade