Lagoeiro

20/05/2020

Gravado em Belo Horizonte 
Cdjs 2000 + DJM 900 

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Video Live





Diálogo:

Lagoeiro é DJ e um dos co-fundadores da Masterplano lá de Belo Horizonte, no dia 20/05 teve live dele na nossa página. 

Amigo, primeiramente muito obrigado pela sua participação. Seu set na live quarta-feira (20) tava uma delicia. Como foi o processo de gravar esta live/mix para a Versa?

"Eu que agradeço pelo espaço. Venho acompanhando a Versa à distância e eu aprecio muito o cuidado com que vocês constroem a festa visualmente, e sempre tive vontade de fazer parte. O set foi gravado na sala da minha casa com o dois CDJs 2000 da Masterplano e um mixer DJM900 que peguei emprestado com o Lelê do Deputa (obrigado Masterplano e Deputa!). Tava frio no dia então eu coloquei umas roupas quentes e fui tocar. Tentei fazer com que o set começasse um pouco mais soturno e fosse atingindo um pico de euforia ali pelo meio para depois se acalmar em direção ao fim."


Qual foi o momento que decidiu iniciar na carreira de DJ?

"Apesar de ter tocado esporadicamente quando eu ainda era estudante, eu acho que eu passei a me entender como DJ mesmo a partir de 2015, quando começamos a Masterplano. Era um grupo de amigos que estava com muita vontade de ouvir e dançar música eletrônica e não queria ter que se mudar de cidade pra fazer isso. E, nesse momento, a gente não conseguia se enxergar nos espaços dedicados à música eletrônica que existiam em Belo Horizonte. A gente queria festa boa e precisava de DJs. E foi assim, no susto, que eu tive que me apresentar como DJ de uma forma mais organizada e não parei desde então."


E no seu processo como artista, teve algum momento que causou impacto e influenciou seu modo de tocar?

"Não sei se eu consigo detectar um único momento em que a chave virou para mim, mas eu acho que eu consigo nomear algumas momentos. Primeiro, eu acho que estar fora de casa é sempre uma boa oportunidade para ser impactado por música de uma maneira que te dê ideias, né? Eu morei em Londres para estudar entre 2012 e 2013 (por conta de uma bolsa de estudos do governo brasileiro) e eu inevitavelmente tive muito contato com garage, acid house, drum’n’bass, bass e jungle por lá. Lógico que no primeiro contato eu não fazia ideia do que eu estava ouvindo, mas hoje eu entendo um pouco melhor quais sons eram aqueles e eu percebo que isso acabou sendo importante para eu me tornar mais sensível a esse tipo de música. Depois, de volta ao Brasil e antes da Masterplano, fui encontrar a minha amiga e parceira Acaptcha, que tinha se mudado de BH para São Paulo em 2014, e nós fomos juntos a algumas edições da Voodoohop e da Capslock, e eu acho que esses foram momentos importantes também para entender que dava pra experimentar música eletrônica de outras formas em nossas cidades brasileiras. A edição de 2017 do RBMA São Paulo foi muito especial para mim também. Acho que assim como muita gente, naquela época eu não sabia quem era a Honey Dijon e descobri-la tocando naquela pista menor do festival, com suor escorrendo pelas paredes no meio de um monte de resquícios industriais foi com certeza um momento inspirador. "


A Masterplano é um coletivo de pessoas envolvidas com arquitetura em sua formação; e tem como intenção reativar espaços ociosos/subutilizados e trazer novos usos para espaços públicos através das manifestações festivas e culturais. Em São Paulo desde o início da gestão Dória e agora com o Covas, é quase impossível ocupar a rua legalmente, alvarás chegam a ser negados no dia. Dentre as experiências que tiveram no passado e levando em conta que Minas Gerais tem um governo ultra liberal, consegue ver alguma diferença no poder de ação de vocês hoje? As coisas ficaram mais difíceis?

"No que diz respeito a legalização, era tudo muito mais fácil no começo da Masterplano. Não porque os processos burocráticos era mais amigáveis, mas sim porque nós ainda éramos invisíveis e portanto, passávamos despercebidos pela polícia e pela fiscalização. Mas à medida que as festas foram sendo mais reconhecidas, a vigilância foi aumentando e começamos a ser cobrados pela legalidade. Aí tudo começou a ficar mais difícil… Mas apesar do governo do estado de Minas Gerais ser mesmo conservador e, como você disse, ultra liberal, a nível municipal, Belo Horizonte é bem diferente. Nós temos as vereadoras progressistas do mandato coletivo da Gabinetona e elas estão muito dedicadas a abrir canais de diálogo com a cultura e a juventude porque são pessoas que vieram desse lugar. E desde que elas começaram a atuar, nós participamos junto a representantes dos movimentos de funk, hip hop e reggae de audiências públicas na câmara municipal para discutir a legalização e a repressão policial nas festas. Isso fez com que a prefeitura começasse um trabalho para desburocratizar a ocupação do espaço público e entre o final de 2019 e o começo desse ano, a regulação urbana estava revisando o processo para emissão de alvará, para torná-lo mais fácil e acessível, e isso é uma resposta à nossa luta. Além disso, a nossa atual Secretaria Municipal de Cultura entende e reconhece a cena de música eletrônica não como entretenimento, e sim como cultura, abrindo portas para que as festas escrevam projetos capazes de ser contemplados por editais públicos, o que não pode ser o único caminho para a nossa atuação, mas sem dúvida é uma possibilidade para pensarmos uma dimensão mais pública, democrática e educativa para a música eletrônica."


A Masterplano foi o primeiro rolê de música eletrônica que eu fui. Foi numa edição na Praia da Estação em 2015 se não me engano, que caiu um toró. Foi sem dúvida o momento onde muita coisa mudou para mim, quase que um "cair na real” e sou muito grato a isso. Como você vê os impactos socio culturais e também pessoais/individuais promovidos pela rave?

"Haha, que ótima essa memória, fico feliz de ouvir. Eu acho que das potências da rave urbana, a que mais me encanta é a forma como ela é capaz de injetar imaginação em nosso cotidiano. Ela nos apresenta outras formas de enxergar a cidade e é capaz de transformar qualquer ambiente hostil em um parque de diversões. E eu gosto de entender isso como qualidade de vida. E eu acho que em nossas metrópoles isso é muito urgente para quebrar a dureza do nosso dia-a-dia de trabalhador. Mas isso não é exlclusivo da rave. É também uma característica do carnaval, do baile funk, do hip hop e de tantas outras manifestações festivas e musicais que existem no Brasil."


Perguntas rápidas:
Qual selo vem marcando sua pesquisa mais recente?

"Bbbbbbrecors"



Música que da aquela saudade da pista da Masterplano.

"Electrain, Maruwa. De manhã, é claro."



Set que escutaria pra acalmar a mente.

"O último set do João Nogueira para a A-MIG é super bem vindo nessas horas. "



Track que achou durante a quarentena e quer muito tocar logo nas pistas.




Lagoeiro conversa com Brugnara

Design: Image Fiction + Oujuca

Curadoria Visual e Fotografia: Rafael Baumer